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  • Alexandre Ferraz

Crítica: "A Divisão"

Em 1997, ocorria uma onda de sequestros na cidade do Rio de Janeiro que aterrorizava a população e deixava a polícia carioca completamente perdida. Frente a isso, foi montada uma equipe não-convencional de agentes da lei que, dentro de 1 ano, conseguiu pôr um fim a esse terror. Baseando-se em acontecimentos reais, o filme “A Divisão” mostra os bastidores dessa história revelando os diversos podres que a permeavam.



Dirigido por Vicente Amorim, “A Divisão” faz parte da leva de projetos do serviço de streaming da Globo, o Globoplay, desenvolvidos tanto para a plataforma em formato de série quanto para os cinemas. Curiosamente, este aqui fez o caminho contrário de produções como “Hebe" e “Chacrinha”, entrando nas salas de exibição um bom tempo depois da estreia da série de 5 episódios, que entrou no catálogo do streaming em julho de 2019.


O longa-metragem/série, protagonizado por Erom Cordeiro e Silvio Guindane, que interpretam o investigador corrupto Santiago e o violento policial Mendonça, respectivamente, segue a forma do suspense policial, recheado de ação e com toques de drama, para contar a história da equipe da Divisão de Antissequestro do Rio (DASS) durante o período de combate à epidemia de sequestros. Após o rapto da filha de um importante deputado futuro candidato a governador do Rio (Dalton Vigh), a DASS se vê obrigada a montar uma equipe especialmente eficiente e é aí que entram as escolhas inusitadas de Mendonça para comandar a operação e de Santiago para fazer parte da investigação do delegado Benício (Marcos Palmeira). A figura da personagem de Erom Cordeiro traz junto para a divisão seus outros dois parceiros de trabalho e de esquemas ilegais, Roberta (Natália Lage) e Ramos (Thelmo Fernandes).


A partir de oposições entre o trabalho usual de negociação da polícia, o excessivamente violento por parte de Mendonça e o "jeitinho" praticado pelo trio de Santiago, o filme cria as tensões entre seus personagens, tensões estas que movem a trama com êxito em sua maior parte. A produção sabe usar o acervo rico de atores da Globo e o elenco segura bem a narrativa. Cordeiro e Guindane atingem o nível necessário que os personagens principais desse filme demandam e é uma boa escolha de casting apostar em suas figuras não tão famosas como as de outros astros da Rede Globo, como no caso de Rodrigo Lombardi na série e filme “Carcereiros”, para guiar a trama.


Ainda sobre a narrativa, “A Divisão” mantém o interesse e é capaz de pegar um material-base verídico muito interessante, dilui-lo e de, na medida em que o gênero escolhido para o filme permite, ao menos pincelar críticas a todos àqueles envolvidos na história. São expostos diversos tipos de corrupção dentro da polícia e nem o político que tem sua filha sequestrada tem seu tratamento limitado ao de pobre vítima da situação. Mesmo assim, o roteiro, assinado por muitas mãos, ainda se atém aos dois protagonistas como estratégia de segurar a empatia do público, de modo a suavizar os crimes cometidos por eles com o objetivo de torná-los os heróis. Afinal, o público não resiste a gostar de um policial cheio de fé que extrapola a violência por motivos ditos mais nobres e do outro que se compadece com a vítima numa investigação em que não queria estar, que não fuma e ainda mantém um bom relacionamento com uma enfermeira.


Nota-se, também, um tratamento raso e até pejorativo dado às figuras femininas da trama. Quando não desempenham o papel da vítima ou da esposa que sofre ao fundo, as mulheres do filme ou encarnam a figura estrategista e insensível com um toque batido de femme fatale (a assessora do deputado) ou a única integrante do trio de policiais corruptos que fica do lado sujo da investigação - as vagas de “corruptos incorruptíveis” do grupo ficam curiosamente com os dois homens. Perde-se uma oportunidade de seguir um caminho mais corajoso e se descolar mais das convenções desse gênero dependente de um protagonismo heróico, e também costumeiramente masculino.



O exercício do suspense policial de ação em cima do tema tratado faz obrigatória a comparação com a franquia “Tropa de Elite”, uma clara influência que confere ao filme certas características que vem para o bem e para o mal. Por um lado, temos boas e tensas sequências de ação que fazem transparecer a qualidade técnica da produção, feita em parceria pela AfroReggae Audiovisual, Hungry Man e Multishow. Por outro, há um certo desconforto e questionamentos que se podem levantar à respeito de como é mostrada a violência no filme, notadamente nas cenas de interrogatório com tortura. Faz parte da proposta mostrar a violência de forma pesada e explícita, mas em grande parte dos momentos ela é estetizada, filmada e acompanhada por uma trilha sonora tal como filmes de ação americanos.


Ao passo que o filme não se mostra completamente alienado a essa discussão dentro de um país onde a violência urbana é um grande sintoma da desigualdade social - como apresenta nas falas e ações do ex-chefe de polícia Pablo Gaspar (Bruce Gomlevsky) e do próprio protagonista Santiago - o fato de assumir as ações policiais como forma de entretenimento é em si controversa, algo que também herda do fenômeno Capitão Nascimento junto com toda a sua controvérsia.



Dentro de suas escolhas estéticas e narrativas, “A Divisão” se mostra capaz de funcionar no cinema mesmo partindo de um formato seriado em que os primeiros quatro episódios - de cinco - são muito parecidos com o que vemos na sala escura. Afinal, trata-se da mesma história, diferentemente do caso do próprio “Carcereiros" que trouxe uma trama inédita aos cinemas no final de 2019. O que mais muda da série para o filme é o ponto onde a história termina. O longa conclui surpreendentemente bem em um momento em que a produção em seu formato de série ainda está longe de acabar. Assim, parece trazer um convite para que os espectadores do cinema vejam a série até o final para complementar a história que, por um lado, já apresenta um fechamento no formato visto. Fica a dúvida sobre a efetividade da estratégia da Globo com o lançamento praticamente repetido de uma obra antes disponibilizada em outro formato.




"A Divisão" chega aos cinemas em 23 de janeiro, com distribuição da Downtown Filmes.

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