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  • Matheus Marcucci

Crítica: ''Ford vs. Ferrari''


Tem algo no esporte que conversa muito bem com o cinema. Parecem nascidos um para o outro. Os dois tem um apreço pelo herói, pelo dramático, pela superação, e por aquele segundo no final onde tudo parece depender de um toque, um chute, ou um respiro. E o mais importante, os dois tem um poder incomparável de criar público, de gerar apreço popular e de envolver - e tirar dinheiro - dos fãs. James Mangold, mais conhecido por seu Logan, filme de heróis indicado a Oscar de roteiro, vai ter sua chance de explorar o gênero em Ford vs. Ferrari.


O filme conta a famosa história real de Carrol Shelby (Matt Damon), um designer de automóveis americano e Ken Miles (Christian Bale), um excêntrico e ideológico piloto britânico. Ambos são contratados pela magnânima Ford para ingressar no meio de corridas automobilísticas para derrotar a vistosa Ferrari, devido a uma richa entre os donos das duas companhias, Henry Ford II (Tracy Letts) e Enzo Ferrari (Remo Girone). O longa - e longa mesmo, se aproximando de 2h30 de projeção - vai trilhar a conturbada relação entre Shelby e Miles enquanto se preparam para tentar vencer a prestigiada corrida de 24 horas de Le Mans em 1966 na França.


O problema de ser um gênero muito explorado, faz com que alguns desenvolvimentos narrativos inevitáveis soem desgastados, mas Mangold desvia (trocadilho proposital) muito bem deles na medida do possível. E alguns outros, derrapa (prometo parar) direto neles, porém faz isso sem medo. Clichês funcionam por uma razão. O filme tem toda uma sensação de um blockbuster antigo, daquele que a Globo pode facilmente picotar 1h, dividir em blocos e exibir segunda a noite no Tela Quente, e toda a família se reune para assistir, mesmo tendo que ver o mesmo comercial da Omo durante infinitas pausas para comerciais.

O diretor se atem a presença de seus protagonistas, que por sua vez possuem personagens interessantíssimos, para segurar a audiência durante pelo menos uma hora de exposição narrativa, que é necessária para construir o terceiro ato, mas também pode soar arrastado e maçante em um filme já longo. Damon e Bale tem talento e simpatia para segurar bem, porém.


Matt Damon encontra em Shelby talvez o papel perfeito que mais encaixa com sua figura midiática no momento, adorável e popular porém perfeitamente socável. Christian Bale também encontra um ótimo lugar para poder ser Christian Bale e ainda ganha um sotaque para brincar, e no geral, entrega uma perfomance hilária, identificável e necessária para o tom do filme. Destaque também para Caitriona Balfe que, nos poucos momentos que tem, se desprende do papel da adorável porém crítica esposa que sempre espera o marido herói em casa (leia-se aqui Claire Foy em O Último Homem), ela tem uma das melhores cenas do filme e Mangold sabiamente resolve a personagem muito bem nela. E também destaque para Tracy Letts, que é hilário, e nunca parece esquecer o humor presente em interpretar Ford em uma rixa que é inegavelmente, um campeonato de medição de ‘’masculinidade''.


Vejo obrigatório falar também da técnica, as cenas de corridas são conduzidas com perfeição tecnológica (mistura de cgi com efeitos práticos), mas também não parece esquecer de que é um filme com uma história pra contar e não desencadeia para um filme que trata carros e corrida como um garoto de 13 anos trataria seus hot wheels ou um filho de bilionário trataria suas Ferraris. A mixagem e edição de som são fantásticas, e vistas em uma boa sala de cinema engrandecem ainda mais a experiência.



Voltando a narrativa, tem-se uma questão muito difícil de lidar: um terceiro ato que se desvia da norma. É quase anti-dramático e anti-climático, o que difere-se de filmes de gênero onde na última corrida, ou a última partida são compostos de pura êxtase, redenção e heroísmo (mesmo que seja perdendo, leia-se aqui, a técnica Rocky Balboa de contrução de terceiro ato). E novamente Mangold, Bale, Damon e cia seguram. Desencadeamos em uma análise sobre indústria vs. arte (ford vs. ferrari ou shelby vs. miles) que não desliza (eu sei que eu prometi, mas dessa vez realmente é a última) para um senso comum, não perdoa e nem condena as ações de seus personagens, o que em um filme com ‘’vs.’' no titulo é quase que agradável. Logo depois, porém, voltamos de novo ao dramático, em cenas que destoam e soam forçadas, mas que visto ser um filme baseado em uma história real e com uma agenda de expor certos fatos, é perdoável. Omitir tal cena porém, seria corajoso, o que o filme não é, e nem tenta ser.


Temos aqui um bom exercício de gênero. Tem todos os elementos funcionais e deve agradar o público e grupos de premiações que tendem ao popular (como Globo de Ouro). Por vezes soa esquemático demais e lembra jeitos antigos de se fazer blockbusters, mas isso, aqui principalmente, está longe de ser um demérito. O esporte nesse filme se relaciona com cinema não só em fórmula como em temática - a crescente e ao mesmo tempo extensa e duradoura discussão de indústria vs. arte. Mangold tem experiencia suficiente no campo para fazer indústria, arte, agradar fãs de esporte, cinema e não ofender ninguém. O valor dele, como um todo, porém, depende muito mais do quanto se está disposto a ignorar ou se deixar apreciar o jogo dos envolvidos.


''Ford vs. Ferrari’' chega aos cinemas dia 14 de novembro com distribuição da 20th Century Fox.

NAVEGUE

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