Search
  • Mariana Matanó

Crítica: "Os Miseráveis" (2019)

★★★★✰


Com base na revolta de 2005 - marcada por confrontos extremamente violentos entre polícia e jovens marginalizados nos subúrbios franceses - e o curta-metragem de mesmo nome dirigido também por Ladj Ly em 2017, doze anos depois - enquanto os conflitos estavam longe de terminar -, o longa de 2019 é urgente retrato da pobreza, violência policial e negligência governamental que não nos atingem tão longe de casa.



Relatando a história de Stéphane (Damien Bonnard), policial que se muda para Montfermeil e se junta ao esquadrão anti-crime local ao lado de Gwada (Djibril Zonga) e do hostil líder de equipe Chris, mais conhecido pelo nome de "Porco Rosa" (Alexis Manenti), o longa apresenta de pouco em pouco as personalidades existentes dentro da comuna. A partir do desaparecimento de um filhote de leão pertencente ao circo cigano de Montfermeil, acompanhamos a perseguição de forma intercalada por dois olhares principais: o de Stéphane, ainda desacostumado com a ação policial da comuna, e a dos jovens marginalizados.



Não é coincidência que Montfermeil tenha sido a cidade escolhida para acolher a história - foi nela, em 1862, que Victor Hugo finalizou o clássico romance Les Misérables. No livro do século XIX, enquanto acompanhamos o destino do condenado Jean Valjean, encontramos a miséria, prostituição, desigualdade social, ação policial controversa, perda da infância - todos esses temas, infelizmente, permanecem atuais na narrativa francesa. É possível reconhecer Javert, o oficial obcecado por "justiça", nos policiais de Montfermeil; as crianças, por outro lado, são uma legião de Gavroche, colocadas desde cedo em situações nas quais não deveriam ser colocadas e obrigadas pelo meio social a reproduzir comportamento adulto por proteção e visibilidade. Em Os Miseráveis de Ladj Ly, no entanto, somos presenteados com importantíssimo recorte racial e uso do advento tecnológico como instrumento de resistência e opressão; não é difícil entender o porquê de ter sido o enviado pela França à corrida pelo prêmio de Filme Internacional no Oscar 2020, além de receber junto de Bacurau (2019, Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles) o Prêmio Do Júri no Festival de Cannes de 2019.



Se engana, no entanto, quem assiste o filme sem enxergar nossos "miseráveis" vizinhos - faço um convite à reflexão acerca da violência policial e marginalização existentes nas cidades e favelas brasileiras. Enquanto Ladj Ly entrega forte e indispensável recorte das manifestações francesas de 2005, não é necessário esforço para relacionar as situações vividas pelos personagens com as que são relatadas diariamente em nosso próprio país.


Recomendo assistir o curta-metragem de 2017 antes do seu homônimo de 2019.


"Os Miseráveis" chega aos cinemas no dia 16 de janeiro de 2020 com distribuição Diamond Films.



NAVEGUE

Todas as imagens de filmes, séries, artistas, editoriais e etc são marcas registradas dos seus respectivos proprietários e usadas aqui sem fins lucrativos.

This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now