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  • Matheus Marcucci

Crítica: ''Solteira Quase Surtando''



Comédias brasileiras são as maiores notas fiscais pra contradizer os que dizem que o cinema nacional não gera público e renda. É obvio usar aqui o exemplo de Minha Mãe É Uma Peça 3, que tem bilheteria acumulada em mais de 180 milhões de reais e um público de 11 milhões de ingressos vendidos. Isso é ótimo, trás argumentos contra situação de um novo desmanche que parece assombrar a cultura no país. Também são essas maiores vítimas de um desapreço da crítica, muitas vezes justos. Um não cancela o outro. Com uma indústria de um gênero bem fomentado, vem suas exceções e se faz mais difícil ainda deixar passar quando o amadorismo e a falta de consistência se apresentam de forma tão clara, como é o caso de Solteira Quase Surtando. Não dá prazer apontar um filme como inassistivel, mas não é fácil quando a obra não te dá opções.


Em Solteira Quase Surtando, Beatriz (Mina Nercessian) é uma workaholic que não deseja ter filhos ou se casar. Após uma suspeita de gravidez acidental, descobre que o tempo de seu relógio biológico para a gravidez e está perto de se esgotar. Solteira (e quase surtando), resolve ir em busca de um marido o mais rápido possível para que possa suprir sua recém adquirida necessidade pela maternidade. Ela tem um amigo gay (Leandro Lima) para dar comentários espirituosos sobre seu comportamento e decisões, uma avó (Beth Zalchman) cujas desventuras religiosas são motivos de muitos risos e uma melhor amiga (Letícia Birkheuer) com uma vida amorosa frustrada precisando aquecer as coisas com o marido entediado.

Tem um motivo para ter escolhido desprover os personagens de seus nomes, pois assim eles parecem ter sido pensados. Começando pela protagonista, que parece uma junção com menos simpatia que todas as mulheres de filmes recentes do gênero interpretadas por Ingrid Guimarães ou Mônica Martelli. Leandro Lima interpreta uma versão pasteurizada de Matheus Solano interpretando Félix na novela da Globo. As semelhanças não só parecem estruturais como todo o elenco fisicamente parece montado com base em uma imaginação carregada de convenções.


Qualquer tentativas de aprofundar os personagens se dividem entre o brega e o ofensivo. O drama do personagem de Leandro é centrado na dificuldade em se assumir como gay para a família. O modo como é escrito e dirigido é errôneo e ultrapassado, soando como artifício jogado na trama para tentar ganhar pontos de consciência social. A avó, cuja religião são piadas no roteiro, se apoiando na falha tentativa de tentar normalizar religiões fora do eixo católico-cristão. É um filme perdido na sua própria tentativa de ser atual, ignorando que certos assuntos merecem e precisam de cuidado, ou ao menos o mínimo de pensamento. A melhor amiga resolve os problemas matrimoniais ao usar uma roupa sexy que reconquista o marido. Quando tenta ganhar aplausos por ser progressista, se mostra retrógrado.

O amadorismo cerca o filme em todos os quesitos. No roteiro da própria Mina Nercessian, é quase extinta as piadas que funcionam e toda a sua estrutura revela falta de domínio da linguagem. Na montagem, que apresenta e some com personagens e tramas sem qualquer sentido lógico - o personagem de Rafael Infante aparece nos 20 minutos finais do filme e, sendo justo, dá uma aula de simpatia e atuação para o resto do elenco, tirando leite de pedra. Além disso, o filme é dublado em quase 1/3 de sua duração, provavelmente por erros da direção de som. As falas não são nem minimamente sincronizadas e os atores parecem nem tentar acertar o tom da atuação original, resultando em um desastre sem tamanho.


Não é divertido ser cruel com cinema nacional, principalmente nesse período. Mas cinema também não é algo que pode ser feito por puro luxo. A indústria e o público exigem e amadorismo não passa. Os problemas do longa poderiam ser concertados com o mínimo de atenção ao trabalho que se propõe, e os exemplos do gênero são muitos. Solteira Quase Surtando é, no final, a maior nota fiscal para se defender a qualidade de Minha Mãe É Uma Peça e um gênero que não vai parar de crescer.


''Solteira Quase Surtando'' chega aos cinemas brasileiros em 12 de março de 2020 com distribuição da Anagrama Filmes.



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