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  • Alexandre Ferraz

Crítica: "Um Dia de Chuva em Nova York"


Um jovem chamado Gatsby (Timothée Chalamet) e sua namorada Ashleigh (Elle Fanning) decidem sair por um tempo do ambiente calmo e campino da universidade onde estudam para passar um dia na cidade de Nova York quando ela recebe a oportunidade de entrevistar um importante cineasta (Liev Schreiber). Aproveitando a oportunidade, Gatsby cria inúmeros planos para que os dois passem um tempo romântico juntos na cidade onde ele cresceu, porém situações inesperadas, um clima chuvoso e questões do passado surgem, frustrando qualquer planejamento. Esse é o ponto de partida para Um Dia de Chuva em Nova York (2019), mais um lançamento com a marca de Woody Allen.


Um novo filme de Allen não significa mais uma produção super aguardada de um autor de prestígio, como já foi sinônimo em outros tempos. Salvo suas últimas presenças em premiações, com Meia-Noite em Paris (2011) e Blue Jasmine (2013), os longas mais recentes encabeçados pelo diretor, roteirista e outrora astro de seus filmes não foram recebidos com grande alarde por parte da crítica e do público, com os quais Allen já esteve bem habituado.


Há os fatores de falta de renovação e repetição de fórmulas que o cineasta passou a apresentar em suas obras – afinal, não é fácil criar algo completamente novo e fresco a cada ano, como praticamente se tornou o ritmo de produções de sua autoria. Porém, o principal motivo de uma grande parcela do público torcer o nariz quando se ouve falar na assinatura de Woody Allen vem do fato que seu nome traz junto quase que de forma automática as polêmicas envolvendo abuso sexual, especialmente de menores no caso das acusações de sua filha adotiva, Dylan Farrow.


Tal noção não só se aplica à recepção do público como, no caso deste Um Dia de Chuva em Nova York, esteve completamente ligada à produção desde o seu início. Frente à polêmica envolvendo o nome do diretor, a Amazon Studios, que tinha acordos de produção e distribuição com os filmes de Allen, optou por quebrar parte do contrato, o que gerou um longo processo judicial entre as partes resultando na falta de distribuição comercial do filme nos cinemas dos Estados Unidos. Como se já não bastasse isso, impulsionados pela crescente dos movimentos contra a exploração sexual na indústria cinematográfica, como o #MeToo, parte do elenco estrelado decidiu não se beneficiar do salário ganho com a produção, doando todo o dinheiro para instituições de apoio à vítimas e de combate à desigualdade de gênero no cinema.



Dito o inevitável, como poderia conseguir este filme se descolar de toda essa controvérsia? Como seria Woody Allen capaz de evitar o assunto e fazer as pessoas focarem apenas em sua história? O fato é que este filme não quer fugir disso, pois nos lembra constantemente ao retratar uma sucessão de homens mais velhos em um jogo de atração pela jovem e inocente namorada do protagonista, Ashleigh. Isso já coloca o filme, por vezes, em situações delicadas, e isso vai depender muito da visão que o espectador tem da figura pública do diretor. Há momentos em que certas piadas envolvendo a relação de homens mais velhos (homens do cinema, especificamente) com uma mulher mais jovem parecem forçar demais na polêmica pela proximidade de situações. Por outras vezes, há uma ironia própria debochando dessa figura do mais velho que se apaixona repentinamente por uma jovem como um preenchimento de suas frustrações. Isso é clássica ironia Woody Allen, só que em território delicado e escorregadio, frente ao contexto.


Assim como na fonte do título no pôster do filme, o longa contém as marcas registradas de Allen, até um pouco demais. O humor focado nos diálogos e pequenas situações funciona em boa parte, mas derrapa em outras, como na cena onde o irmão do protagonista afirma querer cancelar o casamento com sua noiva por conta da risada dela, resultando numa cena significativamente longa que ganha, no máximo, o resultado de ser “engraçadinha”.

Por outro lado, é interessante como o filme, mesmo que repetindo tanto os maneirismos de roteiros prévios, consegue se sustentar em si mesmo. Os causos encontrados pelos personagens mostram-se, em geral, eficientes em manter a curiosidade e interesse da audiência, bem como as experiências românticas dos personagens principais. Allen mostra a sua habilidade ao criar uma atmosfera charmosa de uma Nova York atual mas com um filtro de nostalgia que confere delicadeza e um sentimento agradável às idas e vindas de seus personagens durante este dia chuvoso.


Aqui cabe um destaque à direção de fotografia, à cargo do lendário Vittorio Storaro, responsável pelos visuais impressionantes de Apocalypse Now (1979), de Francis Ford Coppola, e de O Último Imperador (1987), de Bernardo Bertolucci. Storaro parece ter tido liberdade total para explorar a luz inconstante da tarde chuvosa “nova yorkina” e grande parte do charme desta produção se deve ao seu trabalho. A cena em que Gatsby beija Shannon (Selena Gomez) em um carro durante a gravação de um curta-metragem universitário no momento em que começa a chover é particularmente linda.



Mesmo com as estranhas relações que cria com a história real de seu realizador, trata-se de uma comédia romântica simples e gostosa de assistir. Não há grandes pretensões temáticas de discussão e o filme é fiel à isso, ganhando interesse ao confrontar a figura de seu protagonista como na cena em que este é surpreendido em uma conversa com a mãe, em um diálogo muito bem travado por Cherry Jones e Timothée Chalamet na provável melhor cena do filme. O roteiro peca, porém, ao apresentar um final insatisfatório para a figura de Ashleigh, soando como mal resolvido para uma personagem que acompanhamos durante o filme todo em paralelo com o protagonista e que só não divide esse posto com o personagem interpretado por Chalamet porque o ator encarna o clássico tipo já vivido muitas vezes por Allen em tela.


Delicado para o contexto em que foi feito, dentro da filmografia longeva de seu realizador, Um Dia de Chuva em Nova York não se destaca muito, até porque se assemelha a outros trabalhos anteriores, configurando-se numa pedra que brilha às vezes, assim como a luz inconstante da tarde chuvosa de Nova York, em meio à algumas pérolas do diretor.



Um Dia de Chuva em Nova York chega aos cinemas no Brasil em 21 de novembro, com distribuição da Imagem Filmes.

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