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ESPECIAL OSCAR 2020 - Categorias de Atuação

CATEGORIA MELHOR ATRIZ

Por Everton Salzano

Cynthia Erivo como Harriet Tubman em “Harriet”

Em sua primeira indicação ao Oscar, Cynthia Erivo é a única pessoa negra indicada entre as categorias de atuação dessa edição. Todo o seu background teatral ajuda a potencializar sua expressividade na dura e heroica trajetória da ativista negra Harriet Tubman.

O roteiro explora todas as suas possibilidades dramáticas até cansar e peca pelos excessos. A tentativa de trazer leveza para um contexto tão revoltante acaba enfraquecendo a mensagem passada, como em uma cena em que sua personagem começa a cantar e a performance vira basicamente um videoclipe do Disney Channel.

Uma indicação justa, mas não tão memorável.


Charlize Theron como Megin Kelly em “O Escândalo” (“Bombshell”)

Charlize Theron esta irreconhecível como a jornalista Megin Kelly, a grande pivô na recente exposição dos crimes de assédio sexual cometidos pelo CEO da Fox News. Vencedora da categoria em 2004 com sua transformação para o filme “Monster”, a atriz transita bem entre o humor ácido e as cenas de temática mais delicada. Sua personagem conduz a trama entre narrações e interações que quebram a quarta parede, o que é executado com muito carisma.

Mas é visível que o discurso é mais potente que a atuação em si. Por ser um momentum em que a pauta do filme se faz tão necessária, talvez a sensação de alívio que a jornada de sua personagem proporciona pode trazer uma impressão exagerada de sua significância.


Scarlett Johanson como Nicole Barber em “História de um Casamento” (“Marriage Story”)

Scarlett Johanson faz bem um papel que é extremamente bem escrito. A Nicole de Marriage Story faz malabarismo para equilibrar sua vida profissional como atriz com seu lado mãe e esposa. Essa dualidade proporcionada pelo roteiro é um prato cheio para a atriz mostrar sua versatilidade.

E é justamente nessa montanha-russa de acontecimentos que a atriz não administra bem a expressividade e acaba entregando um arco inconsistente.

Esta longe de ser sua melhor atuação, mas é um bom filme para ser sua primeira indicação na categoria. Ao menos seu casting foi coerente e não tirou a representatividade de uma minoria a qual não pertence!


Saoirse Ronan como Jo March em “Adoráveis Mulheres” (“Little Women”)

Jo March é quase um patrimônio histórico americano. Livremente baseada na própria vida da escritora Louisa May Alcott, a personagem vem inspirando pequenas e grandes mulheres por gerações. Foi inclusive indicada ao Oscar em 95, sob a interpretação de Winona Ryder.

Tamanha responsabilidade não assustou a jovem Saoirse Ronan, que aos 25 anos já coleciona 3 outras indicações da Academia. A atriz carrega toda a essência já conhecida da personagem enquanto traz a originalidade necessária para resignificar a obra para essa nova geração.

É lindo assistir as nuances de seu amadurecimento em um arco coming-of-age tão bem detalhado.

Em um ano de concorrência mais morna poderia facilmente levar o premio.


Renée Zellweger como Judy Garland em “Judy”

Os termômetros apontam a vitória para Renée Zellweger na cinebiografia da icônica Judy Garland. Performance vencedora de todas as grandes premiações (Golden Globe, SAG e BAFTA) da temporada, a atriz passa por um retorno aos holofotes semelhante ao arco vivido nas telas.

Renée já foi indicada duas vezes anteriormente (por “O Diário de Bridget Jones” em 2002 e “Chicago” em 2003) e levou a estatueta de “Melhor Atriz Coadjuvante” em 2004 por “Cold Mountain”, mas entre altos e baixos na carreira optou por se afastar da toxidade do meio nos últimos anos.

Sua impecável caracterização facilita a convencer o público, mas é sua imersão na essência de Garland que faz a trama ir além da celebração da obra de uma única estrela e representar tantas outras com quem Hollywood foi cruel ao longo dos anos.

A inteligente escolha de uma voz desgastada deu o tom ideal para a trilha sonora funcionar sem precisar apelar para trejeitos vocais caricatos. É possível ouvir a exaustão de uma alma artística sugada pelos usos e abusos de uma vida sofrida.

Pode não ser o melhor roteiro ou o melhor filme dessa incansável onda de biografias, mas a forma como a atriz carrega o filme é um espetáculo que merece ser visto e enaltecido.




CATEGORIA MELHOR ATOR

Por Elaine Marinho


Jonathan Pryce como Jorge Mario Bergoglio / Papa Francisco em “Dois Papas” (“The Two Popes”)

Esse filme sem dúvida merece vencer em alguma categoria. A possibilidade de ver os acontecimentos de dentro da igreja torna o filme empolgante, já que promete mostrar um pouco sobre um dos lugares mais secretos da humanidade. As imagens reais mescladas com as imagens criadas no filme torna o trabalho de atuação de Jonathan Pryce impressionante. Apesar de ser genial a construção do corpo e da voz, o que torna mais interessante no trabalho do Jonathan nessa obra é a forma encantadora como ele conseguiu traduzir o jeito doce e conquistador de Francisco, que ficou famoso por ter uma forma super moderna de lidar com as coisas mais polêmicas (basta citar a cena que ele assobia a música dancing queen do abba lavando as mãos no banheiro do vaticano). É uma verdadeira aula de atuação e construção de um personagem. Confesso que antes de assistir eu já tinha uma quase certeza sobre pra quem de fato eu tava torcendo, mas Jonathan me causou uma certa dúvida por um breve momento. A semelhança entre ele e o papa sem dúvida foi uma boa contribuição pro resultado final, o que não diminui o grande trabalho de atuação nessa obra incrível.


Adam Driver como Charlie Barber em “História de um Casamento” (“Marriage Story”)

Esse foi o tipo de análise que me levou a ser mais direta e objetiva, já que nos primeiros minutos eu tive sensações bizarras sobre a atuação do Adam. Ainda assim, esperei até o final na esperança de que algo me convencesse do contrário e infelizmente não rolou (falo infelizmente porque acho ele um fofo, mas precisamos jogar a sinceridade, certo amigos?). Minha maior dificuldade foi enxergar com clareza as intenções e objetivos do jogo criado pelo ator. A atuação dele me pareceu opaca, o que a torna ou muito genial ou pouco clara e mais interna, ou seja, ou o personagem era confuso demais pra se entender ou o ator não soube mostrar tão bem as nuances mais profundas da personalidade. Definitivamente, ele não me levou pra dentro dele. Acredito que isso pode ter sido 100% afetado pela clareza absurda de Scarlett Johansson, que conseguiu me transportar totalmente pra dentro da personalidade, intenções e pensamentos da personagem, quase que me fazendo duvidar em que momento meus pensamentos eram meus e em que momento eu sentia por ela. Fascinante!


Joaquin Phoenix como Arthur Fleck em “Coringa” (“Joker”)

Precisa dizer que esse cara é um absurdo? Não consigo escolher palavras muito contidas pra toda a construção, estudo, clareza e jogo cênico desse gênio. Uma das coisas que mais me impressionou foram as nuances detalhistas na mudança de personalidade. Todo o caminho claro e construído com maestria desde quando o personagem era só um artista tentando lutar pela própria sobrevivência até os comportamentos absurdos de um psicopata. Você nota a genialidade desse trabalho a partir do momento que você começa a sentir empatia por um dos vilões mais cruéis da história dos vilões e você não se sente mal por isso. O ator conseguiu me inserir na cabeça desse personagem icônico, apresentando todas as emoções que justificam sua loucura. O ponto mais alto e mais comentado da atuação de Phoenix é como ele usa o riso (tão característico do palhaço) pra expressar suas emoções, intenções, loucuras e até o seu problema psicológico de rir em momentos inapropriados. A construção cronológica desse recurso da risada é tão absurdamente incrível que ela cresce junto com sua personalidade, deixando claro ao espectador o crescimento e mudança gradativa de uma violência e loucura contagiantes dentro da cabeça do personagem. Sem titubear muito ele é o meu favorito pra vencer essa categoria. O ator tem grandes chances e tem sido o nome mais falado, principalmente por ter vencido na categoria Melhor ator - Drama do Globo de Ouro pelo seu ilustre trabalho no Coringa. Joaquin já foi indicado três vezes ao Oscar e não levou nenhum dos prêmios.


Antonio Banderas como Salvador Mallo em “Dor e Glória” (“Dolor y Gloria”)

O filme mostra sua proposta poética desde os primeiros segundos de abertura com as formas abstratas e coloridos nos créditos iniciais. Com uma oportunidade perfeita de explorar a carga emocional de toda a vida de um personagem, Antonio Banderas cumpre bem seu trabalho, apresentando uma construção coerente com a proposta do filme. O ponto mais alto da atuação, nesse caso, é a dualidade de um diretor de cinema maduro porém em crise, é justamente poder enxergar o menino no homem em crise. Não é a toa que essa dualidade já é anunciada no título do filme. Acredito que o chama mais atenção é a poética da obra em si e não necessariamente a execução da proposta trazida pelo ator.


Leonardo DiCaprio como Rick Dalton em “Era uma vez... em Hollywood” (Once Upon a Time... In Hollywood”)

O filme é uma homenagem e por isso parece ter sido usado como estratégia para agradar a academia. Por ter a proposta de fazer uma grande revisitação aos cenários da famosa Hollywood, os outros recursos cinematográficos parecem ter sido menos importantes e isso inclui a atuação do nosso querido Leo. O ponto mais alto das estratégias de ação, reações e intenções do ator é quando ele toma o primeiro choque de realidade sobre sua própria carreira. Ainda assim, minha maior crítica sobre a construção do personagem do DiCaprio é a forma com que ele explora e trata um espectro claramente depressivo de um ator em crise, fazendo parecer que o personagem apenas não aceita o fim de sua carreira, o espaço que ele vai perdendo aos poucos no mercado, sua substituição por outros galãs, o que torna o tema um tanto quanto banal e mal explorado. Leonardo cumpre o seu trabalho bem, mas não me parece ser um grande candidato merecedor nessa categoria.




CATEGORIA MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Por Everton Salzano

Kathy Bates como Barbara Jewell em “O Caso Richard Jewell” (“Richard Jewell”)

É difícil se decepcionar com uma atriz do calibre de Kathy Bates. Consagrada Melhor Atriz na edição de 1991 por Misery, essa é sua terceira indicação na categoria. E foi preciso muito esforço para dar um pouco de alma para um roteiro tão ingrato quanto o de “Richard Jewell”.

Na pele da mãe de um segurança sendo acusado por planejar um ataque terrorista que ele mesmo denunciou em serviço, Kathy fica responsável pela maioria das cenas mais emocionais do longa e traz um respiro para a falta de simpatia do restante do elenco, a começar pelo protagonista.

A cena de seu depoimento é forte, mas acaba sendo apenas uma boa atuação em um filme mediano.


Scarlett Johanson como Rosie Betzler em “Jojo Rabbit”

Outra mãe de protagonista, Scarlett Johanson explora o melhor de sua zona de conforto na genialidade proporcionada por esse roteiro de Taika Waititi.

Sua participação é pequena, mas preciosa para o filme, como a ótima cena em que sua personagem apela para um lado lúdico para entreter o filho tendo que mascarar seu próprio desgaste.

É interessante ver o seu irônico carisma em meio ao complexo contexto nazista da trama.

Com essa indicação, a atriz entra para o seleto grupo de atores que emplacaram indicações em ambas as categorias de atuação em um mesmo ano.


Florence Pugh como Amy March em “Adoráveis Mulheres” (“Little Women”)

Amy costuma ser a irmã March que os leitores de “Little Women” mais gostam de criticar. Sua personalidade forte é comunmente mal interpretada e, sem spoilers, muitos desaprovam seu parceiro no final.

Mas é impossível não amar a jovem notável Florence Pugh, que constrói brilhantemente o arco dramático e da consistência á desafiadora passagem de tempo que Amy passa ao longo da história.

Pode não ser premiada nessa sua primeira indicação, mas com certeza é um nome que vai estar muito presente nos próximos anos.


Margot Robbie como Kayla Pospisil em “O Escândalo” (“Bombshell”)

Talvez o desafio de Margot Robbie personificar tantas vítimas de assédio sexual no “escândalo” da Fox News tenha sido tão difícil quanto o de retratar as personalidades reais interpretadas por Charlize Theron e Nicole Kidman. Sua indicação como Coadjuvante pode até ser uma boa estratégia para ter mais chances nas premiações, mas seu protagonismo na trama é tão notável quanto o de suas parceiras de cena.

Chega a ser desconcertante ver a ingenuidade de sua personagem ser maliciosamente manipulada, e isso só é possível pela sensibilidade que a atriz transborda.


Laura Dern como Nora Fanshaw em “História de um Casamento” (“Marriage Story”)

O cargo de vilã da “História de um Casamento” é todo colocado na figura da advogada á frente do divórcio. E é com os esforços de Laura Dern que esse erro consegue ser ignorado ao longo da trama.

Mesmo com ótimas cenas, não é uma atuação memorável nem para dentro da vasta carreira da atriz.

Sua performance dominou a categoria nas premiações da temporada (Golden Globe, Critic’s Choice, SAG e BAFTA) e prova que ser o favorito nem sempre é sinônimo de ser o mais relevante, é tudo uma questão de cumprir com um protocolo do que os votantes costumam se agradar.




CATEGORIA MELHOR ATOR COADJUVANTE

Por Carol Fung, Alexandre Ferraz e Mariana Matanó



Começo esse texto mostrando meu descontentamento com a academia que após um ano com a vitória tão significativa de Mahershala Ali na categoria de melhor ator coadjuvante, fez indicações com tão pouca diversidade.

Apesar de a maioria realmente merecer a indicação, como de costume o favorito na categoria com certeza não é o maior merecedor. Começo meus comentários, então, falando dele: Brad Pitt.


Não é segredo nenhum que “Era Uma Vez Em... Hollywood” teve um hype muito maior do que a real qualidade do filme. Sou fã do trabalho de Tarantino e não nego que também estava muito empolgada. Gostei do filme, mas não foi nada tão surpreendente quanto a publicidade feita em cima dele. E ai chegamos a Brad Pitt e a pergunta que não quer calar sobre os prêmios que ele tem ganhado: o que viram em sua atuação de tão impressionante? Ao assistir o filme tudo que vi foi o ator interpretando a si mesmo. Com um personagem pouco simpático, Pitt não interpreta nesse filme o melhor papel de sua carreira, nem o pior, o ator dá vida a um personagem mediano, que faz sentido na atmosfera proposta por Tarantino, mas que com certeza não é o melhor indicado do ano.


Seguindo em frente, temos a atuação comovente de Anthony Hopkins como Papa Bento XVI em “Dois Papas” de Fernando Meirelles. O ator se desconecta de papéis que o marcaram, como Hannibal e Odin, e nos mostra novamente sua capacidade incrível de atuação, nos apresentando a um papa alemão muito solitário que apesar de parecer pouco aberto ao afeto e muito conectado à doutrina católica, constrói uma linda relação com Jorge Bergoglio (o Papa Francisco) e sabe a hora de entregar seu posto a alguém com a mente aberta a inovações na igreja.


O polêmico ‘O Irlandês’, de Martin Scorsese, rendeu para a categoria duas indicações – e não me atrevo a reclamar, porque um filme com quase quatro horas de duração poderia muito bem ser dois -: Al Pacino como Jimmy Hoffa e Joe Pesci como Russell Bufalino. É claro, fazem parte do enorme quórum que disputa quem é, afinal, o Melhor Idoso Branco entre todos os idosos brancos que foram indicados nessa edição, mas há que se reconhecer que os dois mestres da atuação vieram para deixar a competição mais acirrada. Sou suspeita para falar de Al Pacino, mas trouxe para as telas uma representação deliciosa mesclando características de Hoffa com as de si mesmo, realmente interpretando o personagem ao invés de imitá-lo. Embora tenha trabalhado com a teimosia, o pavio curto e as manias do Hoffa original, trouxe também amabilidade e tornou fácil gostar do personagem (mesmo que fisicamente não tenha praticamente nada a ver com o líder de sindicato – é, realmente, uma mescla entre ator e personagem. Mas funciona!). Joe Pesci, por outro lado, é inegavelmente a estrela do filme. Após mais de uma década de aposentadoria e nenhuma vontade de fazer o filme – que rejeitou várias vezes -, Pesci entrega performance impecável e dá um baile de atuação em todos os outros competidores. Embora não seja certa a vitória, seu trabalho é assustador. Ao contrário de seus últimos filmes se mostra contido, entre nuances de seriedade e tristeza, e traz o mafioso Russell com precisão e respeito. Não faz com que Bufalino seja adorável, não faz com que seus crimes sejam relevados, mas traz humanidade a uma figura controversa e, com visagismo, se torna muito semelhante ao Bufalino original.


Para completar o time de atores consagrados de volta às premiações, aparece Tom Hanks com sua performance sinceramente tocante encarnando o ídolo dos programas de televisão Fred Rogers em “Um Lindo Dia Na Vizinhança”. Trata-se da única indicação do filme dirigido por Marielle Heller, que, no início das campanhas para premiações, esperava um pouco mais por seguir o hit de “Won’t You Be My Neighbor?” (2018), documentário sobre a personalidade e importância de Mr. Rogers para os americanos. Pelo pouco apelo que vem tendo nas cerimônias, é improvável que Hanks leve o prêmio, mas sua indicação é certamente merecida. O grande mérito da diretora e do ator é propor uma interpretação que não copia o personagem real em que se baseia. Aqui não temos chamativos trabalhos de maquiagem com prostéticos e inflexões de voz para deixar o ator igual à personalidade que representa, coisa que o Oscar costuma adorar. Tom Hanks imprime o tom calmo da voz, a serenidade do olhar e os gestos amorosos de Fred Rogers mas mantém suas características próprias, o que resulta numa atuação que capta a essência da personalidade sem ter que imita-la milimetricamente. Uma interessante lembrança para um tipo de atuação que foge da norma estabelecida em Hollywood.

NAVEGUE

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