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  • Alexandre Ferraz

ESPECIAL OSCAR 2020: Indicados à Melhor Cinematografia

1917

Direção de fotografia: Roger Deakins


Talvez esta seja a categoria mais fácil de prever quem vai ganhar. Isso porque vem ganhando todas as premiações nessa área, não por acaso. O longa-metragem de Sam Mendes tem toda a sua proposta baseada num estilo específico de filmagem. A fotografia, sem a menor dúvida, é o carro chefe deste filme - e o move de uma maneira brilhante. Ambientado na 1a Guerra Mundial, 1917 já traz em seu roteiro o conceito primordial da cinematografia do filme: trata-se basicamente da descrição de um longo, e aparente, plano sequência que acompanha cada ação dos dois soldados em meio à sua missão contra o relógio.


Seguindo essa ideia, Mendes sabiamente confiou à Roger Deakins, um dos grandes nomes da história quando se fala em direção de fotografia, a tarefa de tornar essa visão em cor e em movimento numa tela de cinema. Os dois retomam a parceria de 007 - Operação Skyfall (2012), outro grande trabalho de direção e de cinematografia, e aqui nos brindam com um belíssimo resultado. Se o filme e o diretor chegam entre os favoritos a levar suas respectivas estatuetas, devem a maior parte ao trabalho de Deakins. A execução é impressionante, tendo sido necessárias diversas transições com equipamento para acompanhar os longos takes durante as filmagens. Em vídeos de making-of, é possível ver a câmera presa à uma grua, depois carregada por dois operadores para posteriormente ser presa à um carro que acompanha o protagonista correndo em meio a bombas que explodem ao seu redor, tudo continuamente. Em outro momento, a câmera é carregada por um operador na garupa de uma moto, e por aí vai.



1917 não traz nenhuma proposta inovadora nunca antes vista. Faz parte do subgênero de filmes de guerra apresentar grande vigor técnico, parecendo que um quer superar o outro - podemos citar O Resgate do Soldado Ryan (1998), de Steven Spielberg, e o Dunkirk (2017), de Cristopher Nolan, dentre muitos outros. E também é um fetiche antigo do cinema a rodagem de longos planos-sequência. Desejo e Reparação (2007), de Joe Wright, é um outro filme de guerra que ficou marcado por uma impressionante tomada nesse estilo, Birdman (2014) traz uma proposta muito similar à de Sam Mendes e tem também o Arca Russa (2002), de Alexandr Sokurov, que efetivamente é um filme todo gravado em plano sequência, não apenas simulado. Mas, apesar de todos os seus predecessores, 1917 e seu(s) plano(s)-sequência não perdem o frescor nem a força. É tudo extremamente bem coreografado (palmas à direção) e filmado com primor mas ao mesmo tempo sutileza, de tal forma que o filme te faz esquecer que você está vendo uma ousadia técnica em curso. A cinematografia é certeira ao ponto que chama a atenção mas não rouba-a para si, trabalhando a favor da história. É feito bom uso de sua proposta ao passo que há muitas variações de ângulos de câmera: tem-se planos fechados no rosto do protagonista que transmitem a sua tensão, planos parados em diálogos e planos abertos que mostram a dimensão do exército.


Como se já não bastasse a complexidade da movimentação de câmera, Roger Deakins dá um show com a iluminação, usando e abusando de seus refletores quando o filme permite. Especificamente, há a cena em que o protagonista acorda em uma construção em ruínas e sai correndo enquanto inimigos jogam sinalizadores para tentar vê-lo, pois já está escuro. A variação de luz naquela cena e a forma como ela conduz a movimentação do ator é absolutamente magnífica.


Por tudo isso, Deakins pode levar a sua merecida estatueta para casa.


Coringa (Joker)

Direção de fotografia: Lawrence Sher


Se 1917 não existisse, as apostas para o prêmio de melhor cinematografia voltariam-se, em grande parte, pro campeão de indicações. Lawrence Sher, o diretor de fotografia, ajuda a imprimir a visão de Todd Philips sobre a origem do palhaço do crime que tanto conquistou o público e a crítica ao redor do mundo, pintando uma Gotham City bruta, cruel e toda saturada de cor. Particularmente, não me pareceu uma visão muito original e às vezes parece exercer alguns clichês como o contraste entre laranja e azul bem saturados, uma marca de filmes de ação. Porém, é certo que a execução é ótima.


O filme brinca muito com a noção de realidade e loucura do protagonista e a cinematografia é parte integrante para fazer isso acontecer com suas oposições de luz e trocas de lente. Para um filme vindo do universo de super-heróis de quadrinhos, é notável a quantidade de planos fechados no protagonista e em detalhes, e isso funciona bem para construir o drama do personagem. Enquanto Joaquin Phoenix arrebata com sua performance, as lentes estão lá captando cada nuance de seu corpo. Há de se destacar também a ambientação no metrô e a sequência do clímax que é linda e atordoante ao mesmo tempo. A menção de um trabalho responsável por criar imagens já tão emblemáticas na cultura pop não poderia faltar.


Era Uma Vez Em… Hollywood (Once Upon A Time… In Hollywood)

Direção de fotografia: Robert Richardson


A parceria ainda mais duradoura entre Robert Richardson e Quentin Tarantino traz outro forte candidato ao prêmio de “melhor cinematografia caso 1917 não existisse”. Os filmes de Tarantino sempre trazem marcas fortes suas como os diálogos e a ação exagerada/explícita/tosca que só ele sabe fazer. Soma-se um elenco de peso em sua melhor forma e fica difícil impactar com mais coisa, né? Não. Tarantino, além de escrever e manejar elencos estrelados muito bem, também sabe filmar e conhece demais cinema.


Neste filme, por ser uma homenagem direta à Hollywood, o diretor de fotografia tem um parato cheio para explorar. Richardson e Tarantino exercem diferentes tipos de filmagem dentro deste filme, gravando faroestes para TV, faroestes italianos, séries policiais americanas, entrevistas de bastidores, etc. Tem preto e branco no meio do filme, tem janela 4:3 e tem diversos tipos de brincadeira com a metalinguagem. Nada disso fica estranho junto ao resto da produção e ela caminha com muita destreza entre seus diferentes momentos e climas. Richardson parece saber filmar bem qualquer coisa que o Tarantino pedir, vai de humor escrachado à tensão, de homenagem adorável (Sharon Tate aka Margot Robbie vai ao cinema) à momentos awkward (qualquer chilique de Leonardo DiCaprio).


O Farol (The Lighthouse)

Direção de fotografia: Jarin Blaschke



Como de costume, há no Oscar os indicados que aparecem só em categorias específicas e ficam marcados por elas apenas. Quando isso acontece, por um lado, evidenciam a qualidade de seu desempenho naquela área, por outro, acabam implicando que as outras características do filme não são tão boas assim. Ou, pode ser o caso de uma esnobada por parte da Academia. E esse, infelizmente, é o caso de O Farol. O terror protagonizado por Robert Pattinson e Willem Daffoe é uma das grandes ausências na premiação deste ano, é aquele filme cult demais para estar no Oscar e que acabou não tendo a campanha necessária para tal. Porém, se o quesito para indicação fosse apenas qualidade, o longa de Robbert Eggers poderia muito bem figurar em outras categorias como as de atuação e direção.


Mas, como o assunto aqui é fotografia, vamos para ela. O trabalho assinado por Jarin Blaschke parece ocupar a vaga de filme em preto e branco que vira e mexe aparece nessa categoria. Não que isso seja algo a se desprezar, muito pelo contrário. A escolha de se filmar o filme em pb e da janela quadrada 4:3, aliados a um tratamento específico da imagem, conferem ao filme um aspecto obviamente antigo e estranho. Além dos significados imediatos, em entrevista após uma exibição do filme no Brasil durante a Mostra Internacional de São Paulo de 2019, o diretor Robbert Eggers comentou que tais escolhas também se devem a simples características dos enquadramentos em si: a janela quadrada é melhor para filmar close-ups e planos verticais. E isso acontece bastante no longa, com a construção do farol como esse templo mítico, enigmático e assombrado e as compridas falas declamadas por seus personagens.


A fotografia estilizada de O Farol é outra que marcou bastante este filme tão peculiar e com certeza é merecedora da estatueta, mesmo que correndo por fora.


O Irlandês (The Irishman)

Direção de fotografia: Rodrigo Prieto


Mais uma dupla de conhecidos, Martin Scorsese e o diretor de fotografia Rodrigo Prieto voltam a trabalhar juntos no tão aguardado O Irlandês. Assim como em Era Uma Vez Em… Hollywood, a cinematografia não é o maior chamativo dessa produção, ainda com o prejuízo de não ter muito pretexto para brincar com a imagem como o filme de Tarantino. Aqui foca-se muito nas atuações dos lendários atores e no roteiro denso, ficando a fotografia mais à serviço da história.


Não que ela precise chamar atenção para ser boa, faz parte da sua execução tornar aquele universo do filme natural ao público e às vezes o trabalho que passa despercebido é o melhor deles. Se parar para notar, nas cenas em que mais somos pegos pela performance dos atores, há uma luz bem montada e a lente certa para captar a emoção do ator. Há a efetiva diferenciação de época e certos momentos de deleite que nos lembram os bons tempos de Scorsese filmando máfia (que pelo jeito estão rolando até hoje), como a cena em que um travelling lateral acompanha o protagonista no momento em que mata um outro gângster numa lanchonete.


Tem que ser comentada também a dificuldade em se filmar os atores veteranos para rejuvenesce-los depois. É claro que este foi um trabalho de efeitos em pós-produção mas, para isso, foi necessário filmar com três câmeras diferentes em grande parte e, por isso, tem que ser reconhecida e eficiência do fotógrafo para gravar nessas condições mantendo a naturalidade das cenas.


E algo que vem sendo comentado é a diferença entre assistir o filme em casa na Netflix e na tela de um cinema. Dizem que quando visto na tela grande parece que o filme foi feito para passar lá, então com certeza perde-se um pouco assistindo em casa. Uma pena que nem todos puderam ter essa oportunidade.


Os esnobados

Diretor: A Academia


Foram lançados muitos filmes com trabalhos incríveis de cinematografia para se limitar só nos escolhidos do Oscar. Há outros que poderiam tranquilamente figurar na lista de candidatos, ainda que os indicados mereçam a sua vaga. O destaque aqui vai para Ad Astra, de James Gray, ficção-científica espacial protagonizada por Brad Pitt, que só recebeu uma indicação em Mixagem de Som. Pouco falado nesta temporada de premiações, se o longa não se destacou muito pela história, com certeza a técnica fez os olhos brilharem. Filmes de espaço costumam dar aos cineastas possibilidades de explorar bem a imagem e aqui o diretor de fotografia Hoyte Van Hoytema (responsável pelo cargo no aclamado Dunkirk e no outro espacial Interestelar, ambos de Cristopher Nolan) não perde a chance, exercendo uma cinematografia linda, ousada e criativa.


Outros que ficaram de fora e merecem um lugar na menção honrosa para cinematografia são Jojo Rabbit, Parasita, Adoráveis Mulheres e Ford v. Ferrari.

NAVEGUE

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