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ESPECIAL OSCAR 2020 - Melhor Roteiro Original e Adaptado

CATEGORIA MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

Por Dara Galvão




HISTÓRIA DE UM CASAMENTO me manteve presa. Toda a construção e vibração da história nos encaminhou para um final inevitável e bittersweet. Fui genuinamente tocada e emocionada com a vida dos personagens. Eles vivem, de verdade. É uma história que pulsa e prende pela verdade com a qual é tratada. História de gente real, que sofre, que ama, que tem dúvida, que sonha. O filme é uma poesia sobre a vida em sua maior simplicidade e complexidade cotidiana. O roteiro é sensível, bonito, muito bem amarrado. Muito detalhista e minuncioso. Desde a primeira cena me manteve encantada e comovida. É o tipo de texto que faz com que a gente olhe pra vida real como poesia, e isso é um presente. De verdade, esse filme é um presente. É concreto, faz o espectador se questionar sobre suas ações e influência na vida do outro, sobre como nossa vida tem tanto da arte e a arte tem tanto da vida. É a minha escolha da categoria.




PARASITA tem um ritmo tão meticuloso e calculado que parece um ballet. É uma história inteligente, com nuances interessantes que me transportaram pra um universo próprio e me encurralaram. De repente o espectador se vê preso no labirinto junto com os personagens. É inegável a força e maestria desse filme e roteiro. Não consigo nem sequer definir o gênero no qual o filme se encaixaria, e isso é impressionante, num bom sentido. Com um plot twist gráfico e grotesco e um final estranhamente sensível, dados os acontecimentos, Parasita não cansa nunca de chocar. A obra não se rende a clichês, traça seu próprio caminho e o segue com força e confiança. Original e refrescante, vai reverberar na minha mente por um bom tempo.




ONCE UPON A TIME... IN HOLLYWOOD é uma obra dinâmica. Centraliza o lugar e época como personagem principal de uma forma interessante. De repente, o protagonista não sendo de fato uma pessoa, faz com que a narrativa vire mais abrangente e envolvente dentro daquele cenário. O filme não foge muito da estética de assinatura de Tarantino, embora alimente os fãs com novas perspectivas nessa quase carta de amor à Hollywood.

É eletrizante, rico em referências e colorido, com certeza. É um ótimo trabalho, sem dúvida, mas não me surpreendeu tanto quanto os dois mencionados anteriormente.



1917 é uma obra prima. Desde sua concepção, da história ser inspirada em histórias de guerra do avô do co-roteirista e diretor Sam Mendes à sacada genial de tê-lo encenado em muito plano sequência. É meticuloso, como precisaria ser para que fosse possível sua execução. Merece a indicação, mas não seria minha escolha número um. Muitos aspectos falam bem mais alto na obra que o roteiro, que apesar de certeiro e quase cirúrgico, não é meu favorito. É um filme importante, sobre humanidade, sobre o absurdo da guerra e sobre a importância que cada pessoa tem nesse mar de gente que vemos todos os dias. Mas, ainda assim, chega até mim como mais um filme de guerra. Com seus clichês, mesmo tom, questionamentos similares a muitos outros. Então, apesar de incrível, não é tão original assim.




KNIVES OUT é inegavelmente genial. Detalhista, certeiro e refrescante. O filme parece uma adaptação perfeita de Ágatha Christie, mas não é. Com uma definição maravilhosa de todos os aspectos necessários para o desenvolvimento do filme, com quem, onde, como, porque e a lógica investigativa, é impossível não se sentir jogando detetive. Cheio de referências aos clássicos e uma verdadeira homenagem ao gênero, Knives Out é refinado em todos os aspectos.


Knives Out também poderia ganhar, e mereceria, mas minha escolha é com o coração e ele está com Noah Baumbach e História de Um Casamento.




CATEGORIA MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

Por Matheus Marcucci



Adoráveis Mulheres (Little Women) - Roteiro de Greta Gerwig

O romance original de Louisa May Alcott, ‘'Mulherzinhas'' (título da tradução original brasileira) é uma daquelas clássicas literaturas americanas que são discutidas a fio e fazem parte da grade escolar do país, vide O Sol É Para Todos e Senhor das Moscas. Isso criou uma legião de seguidores, que se indentificam na obra por seu caráter tão doce e de fácil apego, o livro é ao mesmo tempo que indiscutivelmente um produto de seu tempo, um retrato atemporal do sentimento da juventude.


Enraizado e atemporal parecem ser características contrastantes, e são, mas é justamente esse fato que faz ser uma história tão procurada. Adaptado diversas e diversas vezes, já foi explorado de variadas formas: tentativas que se apegam a época e ao literal, e adaptações jovens que tentam trazer seu conteúdo aos dias e gêneros atuais. Greta Gerwig é uma cineasta jovem, que fala com os jovens, principalmente os americanos, seu Lady Bird é um ótimo retrato dessa juventude pois usa uma estrutura agradável e de fácil apego emocional apoiado na sinceridade da diretora. Ela é perfeita pra cumprir o papel proposto nesse filme. Em Adoráveis Mulheres, Greta tece com sinceridade uma carta de amor ao livro, que se permite ser igualmente boba quanto quer e séria quando precisa. Mas não tem medo de criticar, questionar sem julgamentos e o mais importante, dar uma solução aos problemas de temporalidade do livro - principalmente em relação ao tão discutido final. O roteiro é como uma ótima tese de uma jovem apaixonada por literatura, que consegue se ver em um livro e ao mesmo o analisar com distância.


As categorias de roteiro parecem o lugar perfeito para esses filmes com um público específico e apaixonado se consagrarem - tal qual Me Chame Pelo Seu Nome alguns anos atrás. Mas ao mesmo tempo não é um filme que consegue pegar todos os públicos, provado pela falta de indicações nas demais categorias, principalmente a tão discutida direção, mas aqueles que veem o que Greta tenta fazer no filme, e se identificam, tem um roteiro tão doce e de fácil apego quanto ao livro.



“Coringa” (“Joker”) - Roteiro de Todd Phillips e Scott Silver

Indicado por adaptar um personagem de quadrinhos. Todd Phillips e Joaquim Phoenix parecem não gostar de descrever o filme assim. Em todas as entrevistas o comentário é o mesmo, distanciar o filme dos inúmeros blockbusters de heróis que saem aos montes e monopolizam as salas de cinemas mundiais. A indústria comprou a justificativa, que vê em Joker uma solução e um bom meio termo entre o cinema autoral e os canhões de dinheiro que se tornaram super heróis e vilões. Se os bilhões que fez em bilheteria foram por essa justificativa ou a boa e velha associação ao Batman e o logo da DC é outra discussão, assim como a imensa similaridade tonal e artística com filmes da filmografia de Scorsese.


Todd, e a campanha para premiações do filme o descrevem como uma história sobre como o mais baixo em uma sociedade é induzido ao terror quando falta aos outros empatia, é pra servir como um reflexo social. Essa narrativa promocional criou certa aversão de algumas pessoas, que trazem pontos como uma absolvição e descontração do vilão em um período em que forças parecidas parecem tomar a narrativa pra si na política mundial e onde humanização serve como uma especie de justificativa para a atrocidade. Todd e companhia defendem que a empatia e o olhar ao outro é uma solução para o ódio, e esse ódio que cria figuras parecidas. Nenhum dos lados parece ceder, e por mais irônico que seja, o filme é ambíguo e pode-se fazer leituras mais sofisticadas que a própria narrativa empurrada pela produção. O filme ganhou Leão de Ouro em um Festival de Veneza presidido por Lucrecia Martel, então a discussão quanto sua qualidade cinematográfica não é tão preto no branco quanto a divisão ‘'obra prima sem erros’' vs. ‘’símbolo incapaz do conservadorismo autoritário’' que parece dominar a bolha das redes sociais.


Histórias sérias e análises de personagens antes considerados de um tom só é algo que vários artistas e escritores vem fazendo no mercado de graphic novels e até dentro da linha editorial principal das editoras como Marvel e DC, tem algum tempo. Inclusive em O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller e Piada Mortal de Alan Moore que são claras e óbvias inspirações do filme, por mais que toda a campanha tenha ido para outro lado.

Não deve ganhar, mas se ganhar, não veremos o fim dessa discussão até Green Book 2 ser indicado a melhor filme em 2026.



“Dois Papas” (“Two Popes”) - Roteiro de Anthony McCarten

Dois Papas é o filme que não conseguiu quebrar a barreira de melhor filme, e de melhor direção para nosso querido Meirelles mas se manteve bem espalhado entre outros diversas categorias. Roteiro Adaptado é uma delas. O roteiro de McCarten é baseado em seu próprio livro Dois Papas: Francisco, Bento e a decisão que abalou o mundo uma espécie de biografia ficcional que se baseia em fatos conhecidos para teorizar e discutir ações que levaram ao renúncia de Bento XVI dando lugar ao polêmico Francisco, e principalmente focado na amizade dos dois e no passado do atual papa na argentina.


É um filme que se tem menos o que falar, confesso. É bem competente e divertido, principalmente pela identidade trazido por Meirelles e os dois atores protagonistas (Anthony Hopkins e Jonathan Pryce) que dá um brilho extra ao roteiro afiado principalmente nos diálogos. Notoriamente, a produção inicialmente se tratava mais do passado de Francisco e Bento XVI foi ganhando mais co-protagonismo durante o processo. E ainda bem, pois as partes mais fracas são justamente quanto o longa se desvia dos dois. É a opção que geraria menos reações, e isso deve transmitir aos votantes, portanto não deve ganhar.



“Jojo Rabbit” - Roteiro de Taika Watiti

Tomado pelo humor kiwi já familiar na filmografia de Taika, principalmente filmes como A Incrível Aventura de Rick Baker e Boy, e que recentemente também mostrou-se um casamento perfeito a filmes da máquina da Marvel no elogiado Thor: Ragnarok; Jojo Rabbit escolhe um tema super tranquilo e pouco difícil de tratar: nazifascismo.

A questão do roteiro é que a identidade de Taika é tão impressa na obra que quando ela encaixa, parece perfeito, é fofo, hilário e adorável, mas quando parece necessitar de mais habilidade e cuidado do diretor, acaba caindo por terra. Não é mundialmente adorado mas também é difícil de se questionar suas boas intenções.


Recentemente, se tornou o favorito a levar o prêmio, principalmente pela sua vitória na mesma categoria no Writers Guild Awards - premiação do sindicato de roteiristas americanos que tradicionalmente prevê a corrida pelo Oscar. Lá, ele teve os mesmos concorrentes que aqui, com exceção de Dois Papas, que deu lugar a Um Dia Lindo na Vizinhança.


O filme trata com leveza e humor de um dos temas mais discutidos do momento, veja aqui um simpático companheiro do mesmo assunto de Joker. Porém, ele escolhe olhar para o fascismo da perspectiva de uma criança e apesar de tocar nos temas que tanto movimentam o imaginário atual - o que é esse fascismo e como ele cresce na sociedade, é bem humorado e praticamente uma versão menos esquizofrênica de algo pertencente a filmografia do Wes Anderson, apesar de desprovido de sofisticação. Um filme tão perigoso e que sendo recebido como inofensivo, se torna ainda mais.


É um favorito de platéias - ganhou o premio do publico em Toronto - e tem a originalidade ao seu lado. Apesar de adaptar o romance Caging Skies da escritora neozelandesa Christine Leunens, ele é o indicado da lista mais diferente de seu material de origem. Taika se dá a liberdade artística para imprimir seu estilo e tira do livro apenas uma base estrutural e a temática, e partir daí, uma média de 10 piadas por página. Não importa para suas chances qual porcentagem delas realmente funciona.



“O Irlandês” (“The Irishman”) - Roteiro de Steven Zaillian

O filme, famoso por suas 3 horas e meia de duração, é considerado por muitos, uma das obras definitivas de Scorsese, cuja importância para o cinema é inegável e até impossível de metrificar. O elenco em si, uma mistura de lendas e antigos consagrados parceiros de trabalho do diretor já é suficiente para alavancar o filme para outros níveis. É famoso que Scorsese vem tentando adaptar o livro I Heard You Paint Houses tem algum tempo, sendo preciso uma carteira aberta de um estúdio de streaming desesperado por reconhecimento em premiações para que finalmente chegasse as telas.


O roteiro é tão artisticamente consciente e genial quanto a direção, é uma aula de cinema. Sua longa direção, que parece ser o que irá afastar os votos, é essencial e vital para seu desenvolvimento. Não é uma falta de controle em podar em montagem quanto pode se afirmar erroneamente, e sim sofisticação de estrutura narrativa em seu ápice, ele precisa daquelas horas, precisa do conforto e desconforto do público, e não só os prevê como usa ao seu favor para contar a história. Scorsese e Zaillian passeiam por gêneros com delicadeza e confiança, é admissivelmente um filme de máfia, a especialidade do diretor , mas as transições entre comédia e drama são sutis e funcionam de uma forma quase impossível de se realizar.


Mas, é longo, e infelizmente teve dificuldade de ultrapassar essa barreira para algumas pessoas, mesmo se tratando de profissionais, o que irá dificultar sua vitória. Perdeu muito por não ter sido majoritariamente visto em um modelo mais convencional, em uma tela grande em uma sala escura, pois é um filme que se beneficia muito sendo visto assim. Esse fato serve como uma pauta muito grande que só tende a crescer nos próprios anos - principalmente quanto a melhor opção de mercado para filmes independentes.

NAVEGUE

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