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Precisamos falar sobre “Hedwig” em “Riverdale”


Já virou tradição reservar uma sessão de terapia para lidar com os traumas causados pelo episódio musical anual de Riverdale. Números musicais fazem parte da linguagem televisiva de Roberto Aguirre-Sacasa e surgem aleatoriamente em todo o seu “Archieverse” (“Riverdale”, “Chilling Adventures of Sabrina” e “Katy Keene”).

A escolha de musical para o especial da quarta temporada foi no mínimo inusitada: “Hedwig and the Angry Inch”.

Afinal, trata-se de um fenômeno Cult que respira temática queer. A personagem criada por John Cameron Mitchell é uma performer que transcende a rótulos de gênero que compartilha suas desilusões amorosas e experiências íntimas através da música.

O que começou em 1998 em um pequeno teatro off-broadway foi tomando proporções inimagináveis, sendo adaptado para os cinemas em 2001 e ganhando diversas montagens ao redor do mundo (tratemos a versão brasileira de 2010 estrelada por Paulinho Vilhena como um surto coletivo). Em 2014 foi remontado dentro dos padrões Broadway, trazendo nomes como Neil Patrick Harris (“How I Met your Mother”), Darren Criss (“Glee”), Michael C. Hall (“Dexter”), Andrew Rannells (“Girls”) e o retorno do autor John Cameron Mitchell no papel título durante a aclamada temporada de mais de um ano.

A atmosfera de adolescentes privilegiados complexados de Riverdale em nada combina com toda a pauta de identidade de gênero e corpo como instrumento político que consagrou o musical. E diferente dos episódios de “Carrie” e “Heathers” (confira a nossa crítica aqui) em que o musical é uma montagem escolar que envolve os alunos, esse especial deixou de lado todo e qualquer conflito que estava sendo desenvolvido durante a temporada para criar situações onde encaixaram números musicais em que mal usavam as letras á favor da narrativa.

Não que dê para esperar coerência nos roteiros de Riverdale, mas tudo se resume em Kevin (Casey Cott) sendo impedido pelo diretor de apresentar um número de Hedwig no show de talentos do colégio (que acaba nem acontecendo), o que magicamente comove todos os alunos (que de repente se revelam grandes fãs do musical) á afrontar tal decisão “injusta”.

A constante sexualização das personagens pode até nos fazer esquecer que todos ainda estão no colegial, mas é extremamente razoável um colégio mediar o teor de qualquer obra apresentada em suas instalações (mesmo que essa lógica não tenha sido aplicada quando se tratava de um material tão provocativo quanto no contexto mais heteronormativo de “Heathers”).

Chega a ser desrespeitoso usar a quebra de paradigmas do texto original como se tivesse o mesmo peso dessa censura escolar. E também acaba aí o desenvolvimento de qualquer discussão mais politizada para dar espaço a adaptações quase que infantilizadas dos números musicais icônicos em situações clichê como uma girls night out entre personagens que nunca fariam isso em outro contexto e a forçassão de barra que foi reviver Barchie.

Entre coreografias que remetem ao estilo de “Chiquititas” e os já conhecidos vocais caóticos, todo o teor provocativo do material original acabou soando como algo fraco e prepotente. E mesmo que seja visível um menor desconforto desse elenco sem preparo técnico algum para lidar com teatro musical (Stop trying to make Cole Sprouse cantando happen”), as escolhas cênicas beiram o ridículo e falham miseravelmente ao tentar se levar a sério.

Se não é para cumprir com o mínimo esperado de um musical e muito menos utilizar música para somar à narrativa, qual o sentido de se desenvolver um episódio “especial” desses?

“Hedwig” não combina com a vibe da série e muito menos tem fandoms parecidos, e não da para sequer considerar válido o esforço de apresentar a obra para uma nova geração uma vez que chega a ser desrespeitosa a forma com que ela foi abordada. Um dos melhores musicais escolhidos até então, mas também o que foi desenvolvido da pior forma.

Fica a sugestão do filme original, de gravações do musical ou até o episódio musical de “Buffy”, mas “Wicked Little Town” é uma experiência desconfortável demais para ser indicada como forma de entretenimento.

NAVEGUE

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